A diferença que um líder faz (ou não)

O cisne negro nas organizações : "Leve-me ao seu líder!"

Quero deixar claro desde o início que líderes fazem sim a diferença no resultado de uma organização. A questão que quero levantar com esse artigo é até onde um líder tem capacidade para interferir no resultado da empresa e a partir de qual ponto suas habilidades  tornam-se inúteis perante as variáveis que o mundo apresenta. Uma liderança forte e capacitada é essencial para qualquer empresa mas não é suficiente.

Um exemplo da tendência que as pessoas tem de atribuir o sucesso ou fracasso das organizações exclusivamente a seus líderes pode ser observado no caso da Vale. Muito tem se falado sobre o mérito de Agnelli na gestão da mineradora. Uma análise recente diz que uma pessoa que tivesse investido R$ 1.000,00 em ações da Vale no dia da posse de Agnelli teria hoje R$ 16.829,00, uma valorização de 1.583%.

Não me leve a mal, tenho uma enorme admiração pelo trabalho desenvolvido por ele e reconheço que Agnelli é uma pessoa extremamente capacitada e competente, porém é um insulto à inteligência achar que ele é o único responsável por tal façanha.

O que dizer de toda a contribuição, positiva e negativa, trazida por seus diretores, gerentes, analistas e demais profissionais que integram a empresa? Será que Agnelli tem alguma influência real sobre o desempenho deles? Até onde vai essa influência?

E no que diz respeito às inúmeras variáveis que estão totalmente fora de seu controle, como por exemplo, aumento mundial no consumo de minério, aumento de exportações, variação no preço das commodities, nível de eficiência de seus concorrentes e avanços tecnológicos, apenas para mencionar alguns?

Um outro exemplo atual é o problema que vem ocorrendo na usina nuclear de Fukushima. Será que seus dirigentes foram incompetentes ao não preverem a possibilidade de que um desastre como esse pudesse acontecer? Até onde vai a responsabilidade dos responsáveis pela usina (projeção de cenários, planos de contingência, investimentos em segurança) e onde começam atuar os fatores que estão totalmente fora de seu controle – um terremoto de escala absurda, seguido por um tsunami com ondas de mais de 7 metros, que acabou inutilizando o sistema de emergência da usina – o famoso cisne negro descrito por Taleb?

Sutton e Pfeffer em seu livro “Hard facts, dangerous half-truts and total nonsense” (sobre o qual escrevi aqui), buscaram quantificar a diferença que um líder realmente exerce sobre os resultados de uma empresa. A conclusão a que eles chegaram é de que o impacto final, na melhor das hipóteses, gira em torno de 10%.

Isso acontece porque organizações são sistemas abertos que, por definição, influenciam e são influenciadas pelas variáveis que compõem o meio em que se encontram.  Mesmo que existisse uma organização na qual tudo e todos fossem 100% controláveis a organização estaria sujeita às influências do ambiente externo, sobre o qual impossível ela ter qualquer tipo de controle.

Parte desse problema, de atribuir o sucesso ou fracasso da organização ao líder, está ligado a um viés cognitivo chamado de erro fundamental de atribuição (fundamental attribution error), estudado por Jones e Harris na década de 60 e considerado um dos conceitos que deu início ao estudo da psicologia social.

Esse viés cognitivo afeta a forma pela qual as pessoas julgam o comportamento dos demais, valorizando excessivamente características pessoais (habilidade, personalidade, etc.) e deixando de lado questões situacionais (ambiente, contexto). Um exemplo simples: se observo alguém tropeçar em uma pedra atribuo essa culpa à falta de atenção da pessoa, mas se eu tropeço nessa mesma pedra atribuo a culpa ao fato da pedra estar em um lugar em que não deveria estar.

Obviamente existem muitas outras questões em jogo, porém analisar todas seria inviável, fica para um próximo artigo.

Da próxima vez em que tiver que atribuir a alguém o mérito ou culpa pelo resultado da organização (ou qualquer outra questão), pense novamente: existem mais coisas entre o céu e a terra do que sonha a nossa vã filosofia*

*William Shakespeare / Hamlet

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Um comentário sobre “A diferença que um líder faz (ou não)

  1. Caro,

    Li seu artigo e respeito sua opnião no entanto discordo de sua colocação.
    Pessoas sem liderança tendem a formar o caus. Lideres não são os responsáveis em checar se a politica está sendo cumprida, se o equipamento foi aferido e se o departamento esta limpo. O mérito de um líder é simplesmente ser capaz de proporcionar que as pessoas responsáveis por cada uma das atividades as cumpra.
    Agnelli é merecedor do mérito que lhe foi atribuido, pois com o seu direcionamento e liderança permitiu que os outros pudessem exercer as suas obrigações.
    Não sou nenhum fanático por religião, mas se você já leu “Jesus, o maior lider que já existiu”, poderá entender o papel de um líder. Afinal de contas seus passos são seguidos por muitos até hoje.
    Enfim liderança é fundamental para organizar qualquer atividade em grupo, tanto que em qualquer situação que tenha um grupo buscando um objetivo não demora para que alguem se destaque como líder.
    Por isso afirmo que UM LÍDER FAZ A DIFERENÇA (SIM).

    Responder

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