Prazeres e desprazeres do trabalho

Trechos do livro “Prazeres e desprazeres do trabalho” de Alain de Botton

Prazeres e desprazeres do trabalho

Numa economia pareteana ideal, os trabalhos seriam divididos cada vez mais minuciosamente, a fim de permitir o acúmulo de conhecimentos complexos que, em seguida, seriam trocados entre os trabalhadores. Seria de interesse de todos que os médicos não perdessem tempo aprendendo a consertar caldeiras, que os condutores ferroviários não costurassem roupas para seus filhos e que os tecnólogos em empacotamento de biscoitos deixassem os problemas de armazenamento para os graduados em gestão de cadeias logísticas […] Numa sociedade perfeita, os trabalhos seriam tão especializados que ninguém mais saberia o que os outros estavam fazendo.

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Quando um trabalho é significativo? Sempre que nos permite gerar prazer ou reduzir o sofrimento dos outros. Embora nos ensinem a pensar que somos inerentemente egoístas, o desejo de atribuir significado a nosso trabalho é uma parte inata e inflexível de nossa composição, assim como nosso apetite por status ou dinheiro.

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A verdadeira questão não é se há significado […] mas até que ponto essa tarefa pode parecer significativa depois de ter sido expandida e subdividida ininterruptamente entre cinco mil vidas e meia dúzia de locais de produção diferentes. É possível que um esforço dotado de significado só pareça importante ao passar vigorosamente pelas mãos de um limitado número de atores, em que trabalhadores específicos podem traçar uma ligação fantasiosa entre o que fizeram em seus dias de trabalho e o impacto que tiveram sobre os outros.

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Segundo o dogma católico, a definição de trabalho nobre havia sido limitada na maioria das vezes à atividade realizada pelos padres a serviço de Deus, com os trabalhos práticos e comerciais reduzidos a uma categoria completamente vil, sem relação com a demonstração de qualquer virtude cristã. Em comparação, a visão de mundo protestante, desenvolvida a partir do século XVI, tentou resgatar o valor das tarefas cotidianas, sugerindo que muitos trabalhos aparentemente banais podiam refletir as qualidades da alma de seu executor. Neste esquema, a humildade, a sabedoria, o respeito e a bondade poderiam ser praticados com a mesma sinceridade numa loja ou num mosteiro. A salvação poderia ser atingida no plano da vida cotidiana, e não apenas em ocasiões grandiosas e sacramentais privilegiadas pelo catolicismo.

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Por mais poderosas que sejam nossas tecnologias e complexas nossas corporações, a característica mais notável do mundo profissional moderno pode ser interna, consistindo num aspecto de nossas mentalidades: a crença muito difundida de que nosso trabalho precisa nos fazer feliz. Todas as sociedades colocaram o trabalho numa posição central; a nossa é a primeira a sugerir que ele pode ser algo mais do que uma punição ou uma penitência. A nossa é a primeira a insinuar que devemos trabalhar mesmo que não haja imperativo financeiro. A escolha de nossas profissões carrega a definição de nossa identidade, chegando ao ponto de não perguntarmos a novos conhecidos de onde eles vêm ou quem são seus pais, mas o que eles fazem, na suposição de que o caminho para uma existência significativa deve sempre passar pelos portões de um emprego remunerado.

Nem sempre foi assim.  No século IV a.C., ao se referir a uma incompatibilidade estrutural entre a satisfação e o trabalho remunerado, Aristóteles definiu uma atitude que duraria mais de dois milênios. Para o filósofo grego, a necessidade financeira equiparava o homem aos escravos e aos animais. Os trabalhos manuais, assim como os lados mercantis da mente, culminariam numa deformação psicológica. Apenas a renda privada e uma vida ociosa poderiam proporcionar aos cidadãos a oportunidade de desfrutar dos elevados prazeres da música e da filosofia.

O cristianismo primitivo acrescentou à percepção aristotélica a doutrina ainda obscura de que os tormentos do trabalho eram formas apropriadas e imutáveis de expiar os pecados de Adão. Apenas no Renascimento é que outras notas começaram a ser ouvidas. Na biografia de grandes artistas, como Leonardo e Michelangelo, ouvimos as primeiras referências às glórias da atividade prática. Embora no início essa reavaliação estivesse limitada à arte […] ela chegou a tempo de abarcar quase todas as profissões. Na metade do século XVIII, numa contestação direta da posição aristotélica Diderot e D´Alembert publicaram a sua Encyclopedie em 27 volumes cheios de artigos que exaltavam a genialidade e a alegria especificas envolvidas em assar pães, plantar aspargos […] e administrar uma mina de prata.

Concebida para ser um lúcido compendio do conhecimento, a Encyclopedie era, na verdade, um hino à nobreza do trabalho.

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Desta forma, os pensadores burgueses do século XVIII subverteram a fórmula aristotélica: as recompensas que os filósofos gregos identificavam com o ócio agora eram transpostas para a esfera do trabalho, enquanto as tarefas sem retorno financeiro tinham toda sua importância esgotada e relegada à atenção fortuita dos diletantes. Agora parecia impossível que alguém pudesse ficar feliz e desocupado, como outrora parecia improvável que alguém pudesse trabalhar e ser humano.

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